Poucos assuntos ligados ao emagrecimento com GLP-1 geraram tanto ruído quanto o chamado “rosto de Ozempic”: a impressão de que o rosto ficou mais fundo, mais flácido, mais envelhecido depois do tratamento. Vale separar o que é achado científico do que é manchete.
O termo nasceu na imprensa
Uma revisão sistemática publicada em 2025 no Aesthetic Surgery Journal Open Forum reuniu tudo o que existia de literatura sobre o tema. O retrato é revelador: 23 artigos, 96% deles publicados entre 2023 e 2025, e a maioria composta por cartas, comentários, revisões e relatos de caso. Apenas três estudos tinham grupo de controle. Não há um único estudo que tenha medido, com exame de imagem, o volume dos compartimentos de gordura do rosto antes e depois do tratamento.
Os próprios autores da revisão escrevem que o termo “rosto de Ozempic” foi criado e popularizado por veículos de imprensa e provavelmente representa uma moda passageira, não uma nova terminologia médica nem um novo efeito colateral.
A explicação mais provável
A conclusão da revisão é que os análogos de GLP-1 não produzem uma atrofia direcionada da gordura facial. O que acontece é mais simples: uma perda de peso grande e rápida reduz a gordura de todo o corpo, inclusive a do rosto, e deixa a pele, cuja elasticidade já diminui com a idade, sobre uma camada de gordura mais fina.
Ninguém estranha que o rosto mude depois de uma perda de 20 kg por qualquer outro método. A diferença é que agora existe um remédio para culpar.
Sendo rigoroso: essa é a leitura dos autores da revisão, e é biologicamente plausível, mas não foi testada em comparação direta entre perda de peso com medicamento e perda de peso equivalente por dieta ou cirurgia. A literatura sobre o assunto ainda é magra.
O que dá para fazer, com honestidade sobre a evidência
Aqui é preciso cuidado, porque circula muita recomendação vendida como ciência. Vamos por partes:
- Preservar massa magra com treino de força e proteína adequada tem evidência sólida. Um ensaio randomizado publicado no New England Journal of Medicine em 2021 mostrou que acrescentar exercício ao tratamento preservou massa livre de gordura. O que esse estudo mediu, porém, foi massa magra corporal, não volume facial.
- Perder peso mais devagar para “poupar o rosto” é uma recomendação plausível, mas não encontrei nenhum estudo publicado que a sustente. Quem afirma isso como fato está indo além da evidência.
- Não existe estudo mostrando que proteína ou musculação preservem gordura facial. O racional é razoável, o dado não existe.
O que isso significa para você
O acompanhamento sério não promete que seu rosto não vai mudar. Ele faz o que é possível fazer com base no que se sabe: conduzir a perda de peso em ritmo adequado, proteger a massa muscular e avaliar cada caso individualmente. E, quando o assunto vira estética facial, encaminhar para quem é da área, em vez de improvisar.
Referências
- 1.Daneshgaran G, Shauly O, Gould DJ. “Ozempic Face” in Plastic Surgery: A Systematic Review. Aesthet Surg J Open Forum. 2025;7:ojaf056
- 2.Lundgren JR et al. Healthy Weight Loss Maintenance with Exercise, Liraglutide, or Both Combined. N Engl J Med. 2021;384(18):1719-1730
- 3.Carboni A et al. Natural Weight Loss or “Ozempic Face”: Demystifying A Social Media Phenomenon. J Drugs Dermatol. 2024;23(1):1367-1368
Aviso importante
Conteúdo de caráter informativo e educativo, que não substitui a consulta médica nem constitui prescrição. Medicamentos citados são de prescrição obrigatória e possuem indicações, contraindicações e riscos que só podem ser avaliados individualmente. Resultados variam de pessoa para pessoa. Responsabilidade técnica: Dr. Kelvin Amanajás (CRM 3272-AP) · Dra. Duane Amanajás (CRM 3494-AP).
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