Quase toda paciente que chega ao consultório já ouviu alguma versão da mesma frase: “é só fechar a boca”. Ela chega, muitas vezes, depois de anos de dietas que funcionaram por três meses e desandaram no quarto. A ciência tem uma explicação melhor, e ela não passa por caráter.
O que uma comissão internacional propôs em 2025
Em janeiro de 2025, a Lancet Diabetes & Endocrinology publicou o relatório de uma comissão liderada por Francesco Rubino, reunindo dezenas de especialistas, com uma proposta que mexe na base do assunto: parar de diagnosticar obesidade apenas pelo IMC.
A recomendação é direta: o IMC deve ser usado como medida aproximada de risco em nível populacional, para estudos epidemiológicos ou como rastreio, e não como medida individual de saúde. Só em IMC muito alto (acima de 40) é possível presumir o excesso de gordura sem confirmação adicional.
Obesidade clínica e obesidade pré-clínica
A comissão propõe separar dois cenários. Na obesidade clínica, há excesso de adiposidade acompanhado de sinais objetivos de disfunção de órgãos ou limitação das atividades do dia a dia: isso é doença, com todas as consequências que a palavra carrega. Na obesidade pré-clínica, há excesso de gordura com função preservada: é fator de risco, não doença estabelecida.
Na prática, o diagnóstico deixa de ser um número na balança e passa a exigir a confirmação do excesso de adiposidade, por medida direta de gordura corporal ou por pelo menos uma medida antropométrica além do IMC, como circunferência da cintura ou relação cintura-estatura.
Duas pessoas com o mesmo IMC podem ter situações clínicas completamente diferentes. É por isso que a consulta existe: para olhar a pessoa, não a fórmula.
Por que isso muda o seu tratamento
- Se a obesidade é doença crônica, tratá-la exige acompanhamento contínuo, e não um esforço heroico de três meses.
- Reganho de peso após a interrupção do tratamento não é fracasso moral: é o comportamento esperado de uma doença crônica cujo tratamento foi suspenso.
- O objetivo do cuidado não é um número na balança, mas a função: pressão, glicemia, sono, mobilidade, disposição.
- A avaliação individual passa a valer mais que qualquer tabela, e é isso que uma consulta séria entrega.
Nada disso significa que hábitos não importam. Significa que cobrar de alguém que vença sozinha, na base da vontade, uma doença com fisiologia própria é tão razoável quanto pedir a uma pessoa hipertensa que baixe a pressão com determinação.
Referências
Aviso importante
Conteúdo de caráter informativo e educativo, que não substitui a consulta médica nem constitui prescrição. Medicamentos citados são de prescrição obrigatória e possuem indicações, contraindicações e riscos que só podem ser avaliados individualmente. Resultados variam de pessoa para pessoa. Responsabilidade técnica: Dr. Kelvin Amanajás (CRM 3272-AP) · Dra. Duane Amanajás (CRM 3494-AP).
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