Essa é a pergunta que raramente aparece nos anúncios e que deveria aparecer em toda primeira consulta: e quando eu parar?
Semaglutida: dois terços de volta
A extensão do estudo STEP-1 acompanhou os participantes depois que todo o tratamento foi interrompido, na semana 68. Durante o tratamento, a perda média havia sido de 17,3% do peso. No ano seguinte à suspensão, houve reganho médio de 11,6 pontos percentuais, o que deixou o saldo final em cerca de 5,6% abaixo do peso inicial. Na prática, os participantes recuperaram cerca de dois terços do que haviam perdido. As melhorias cardiometabólicas também retrocederam em direção ao ponto de partida.
O experimento que separou os dois caminhos
O STEP-4, publicado no JAMA em 2021, é ainda mais elegante. Todos os participantes usaram semaglutida por 20 semanas e perderam, em média, 10,6% do peso. Aí foram sorteados: metade continuou o medicamento, metade passou a receber placebo. Nas 48 semanas seguintes, quem continuou perdeu mais 7,9%. Quem parou ganhou 6,9%. A diferença entre os dois grupos foi de 14,8 pontos percentuais.
Com tirzepatida, o SURMOUNT-4 (JAMA, 2024) repetiu o desenho e encontrou um resultado ainda mais marcante: após 36 semanas de tratamento aberto, quem continuou o medicamento perdeu mais 5,5% nas 52 semanas seguintes, enquanto quem trocou por placebo recuperou 14,0%. Entre os que continuaram, 89,5% mantiveram pelo menos 80% do peso que haviam perdido; entre os que pararam, apenas 16,6%.
O reganho após a suspensão não é falha de caráter nem prova de que “o remédio não funciona”. É o comportamento previsível de uma doença crônica cujo tratamento foi retirado.
O que fazer com essa informação
Ela não significa que ninguém pode parar nunca. Significa que a saída precisa ser planejada, e não improvisada, e que o que sustenta o resultado depois é justamente o que foi construído durante:
- Massa muscular preservada, com treino de força e proteína adequada.
- Padrão alimentar que você consegue manter sem o efeito da medicação segurando o apetite.
- Sono e rotina organizados, que influenciam diretamente a fome.
- Desmame assistido, com acompanhamento, em vez de interrupção abrupta.
- Retornos programados depois da suspensão, porque é aí que o reganho aparece.
Quem promete que você toma por seis meses e “resolve” está vendendo, não tratando.
Referências
- 1.Wilding JPH et al. Weight regain and cardiometabolic effects after withdrawal of semaglutide: the STEP 1 trial extension. Diabetes Obes Metab. 2022;24(8):1553-1564
- 2.Rubino D et al. Effect of Continued Weekly Subcutaneous Semaglutide vs Placebo on Weight Loss Maintenance (STEP 4). JAMA. 2021;325(14):1414-1425
- 3.Aronne LJ et al. Continued Treatment With Tirzepatide for Maintenance of Weight Reduction (SURMOUNT-4). JAMA. 2024;331(1):38-48
Aviso importante
Conteúdo de caráter informativo e educativo, que não substitui a consulta médica nem constitui prescrição. Medicamentos citados são de prescrição obrigatória e possuem indicações, contraindicações e riscos que só podem ser avaliados individualmente. Resultados variam de pessoa para pessoa. Responsabilidade técnica: Dr. Kelvin Amanajás (CRM 3272-AP) · Dra. Duane Amanajás (CRM 3494-AP).
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