Emagrecer não é só perder gordura. Toda perda de peso relevante, com ou sem medicamento, vem acompanhada de alguma perda de massa magra. A questão não é se isso vai acontecer, mas o que você faz a respeito.
Os números da composição corporal
Um subestudo do SURMOUNT-1 acompanhou 160 participantes com exames de composição corporal (DXA) por 72 semanas. Com tirzepatida, a massa gorda caiu 33,9% e a massa magra, 10,9%. Traduzindo em proporção: cerca de 74% do peso perdido foi gordura e 26% foi massa magra.
Aqui está o detalhe que quase todo mundo interpreta errado: no grupo placebo, a proporção foi praticamente a mesma: 75% gordura e 25% massa magra. Ou seja, o medicamento não piora a proporção. O que ele faz é acelerar muito a perda total de peso, e, como o total é maior, a quantidade absoluta de massa magra perdida também é.
O medicamento não “rouba” músculo. Ele acelera o emagrecimento, e o emagrecimento acelerado, sem estímulo, cobra o preço no músculo. O antídoto é conhecido: carga e proteína.
O que quatro sociedades médicas recomendam
Em 2025, o American College of Lifestyle Medicine, a American Society for Nutrition, a Obesity Medicine Association e a The Obesity Society publicaram um parecer conjunto sobre prioridades nutricionais durante o uso de GLP-1. As recomendações práticas:
- Proteína entre 1,2 e 1,6 g por quilo de peso por dia durante a perda ativa de peso, podendo chegar a 1,7 g/kg/dia em quem faz treino de força. Alternativa prática para facilitar a adesão: uma meta absoluta de 80 a 120 g de proteína por dia.
- Treino de força pelo menos 3 vezes por semana, somado a no mínimo 150 minutos semanais de exercício aeróbico de intensidade moderada, para preservar massa muscular e óssea.
- Hidratação e fibras adequadas, que também ajudam nos efeitos gastrointestinais.
E o parecer faz questão de sublinhar um ponto que contraria o senso comum das redes sociais: aumentar a proteína, sozinho, provavelmente não basta para preservar músculo na ausência de treino de força estruturado. Whey no copo não substitui carga na barra.
A evidência de que exercício muda o desfecho
Um ensaio randomizado publicado no New England Journal of Medicine em 2021 comparou, na manutenção do peso perdido, exercício isolado, liraglutida isolada e a combinação dos dois. A combinação foi superior a qualquer estratégia isolada, e a adição do exercício preservou massa livre de gordura, além de potencializar a perda de gordura.
É por isso que, aqui, plano alimentar e treino não são um brinde ao lado da receita. São parte do tratamento.
Referências
- 1.Look M et al. Body composition changes during weight reduction with tirzepatide in the SURMOUNT-1 study. Diabetes Obes Metab. 2025;27(5):2720-2729
- 2.Mozaffarian D et al. Nutritional priorities to support GLP-1 therapy for obesity: joint Advisory (ACLM, ASN, OMA, TOS). Obesity Pillars. 2025;15:100181
- 3.Lundgren JR et al. Healthy Weight Loss Maintenance with Exercise, Liraglutide, or Both Combined. N Engl J Med. 2021;384(18):1719-1730
Aviso importante
Conteúdo de caráter informativo e educativo, que não substitui a consulta médica nem constitui prescrição. Medicamentos citados são de prescrição obrigatória e possuem indicações, contraindicações e riscos que só podem ser avaliados individualmente. Resultados variam de pessoa para pessoa. Responsabilidade técnica: Dr. Kelvin Amanajás (CRM 3272-AP) · Dra. Duane Amanajás (CRM 3494-AP).
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